O VERDADEIRO PERDÃO
“Porque perdoarei as suas iniquidades e dos seus pecados jamais me lembrarei.” (Jeremias 31:34)
O verdadeiro perdão nasce no coração daquele que compreendeu a graça de Deus. Jeremias 31:34 revela a profundidade do perdão divino: Deus não apenas declara o pecador perdoado, mas decide não mais trazer seus pecados à condenação. Por isso, o cristão que perdoa não pode fazê-lo apenas com os lábios, mantendo no coração a acusação, a mágoa e o desejo de vingança. Como ensina Paulo, o amor “não guarda rancor” (1Co 13:5). O perdão verdadeiro é sincero, mesmo quando aquele que nos feriu não reconhece sua culpa, não pede desculpas e não demonstra arrependimento.
O próprio Jesus nos chama a uma disposição radical de perdão. Na cruz, diante daqueles que o crucificavam, orou: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23:34). E ensinou: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5:44). João Calvino, ao tratar do perdão cristão, destaca que somos chamados a abandonar o desejo de vingança e a entregar a Deus o julgamento, lembrando que também vivemos diariamente da misericórdia que recebemos dele. Charles Spurgeon igualmente insistia que o cristão não deve guardar ressentimento contra aqueles que o ofendem, pois quem foi alcançado pela graça deve aprender a manifestar graça. Perdoar, portanto, não significa declarar correto o mal cometido, mas renunciar à vingança e entregar a causa ao justo Juiz.
Há, contudo, uma verdade que precisamos levar profundamente ao coração: não podemos duvidar eternamente do perdão que Deus concedeu a alguém simplesmente porque ainda carregamos preconceitos contra essa pessoa. Se o Senhor perdoou, quem somos nós para continuar cobrando uma dívida que Deus decidiu não mais imputar? Se houve arrependimento e reconciliação diante de Deus, não devemos transformar o passado em instrumento permanente de acusação. O Evangelho nos ensina que a graça de Deus é maior que nossas lembranças, nossas suspeitas e nossos julgamentos. Isso não elimina a prudência nem significa ignorar consequências reais, mas impede que o ressentimento seja disfarçado de zelo pela justiça.
Hoje, precisamos examinar sinceramente o nosso próprio coração. Há pessoas que dizemos ter perdoado, mas cujo nome ainda desperta em nós desconfiança, desprezo e acusações silenciosas? Há irmãos e irmãs a quem o Senhor já concedeu perdão, mas que nós continuamos julgando pelo passado? Se perdoamos, perdoemos de verdade. Se Deus perdoou, não sejamos mais acusadores. Se Cristo nos ensinou a amar, não alimentemos preconceitos contra aqueles que a graça alcançou. O verdadeiro perdão não é uma palavra pronunciada para encerrar uma discussão; é uma decisão sincera de abandonar o rancor e descansar na justiça e na misericórdia de Deus. Se perdoou, perdoe com sinceridade.
Rev. Rogério de Carvalho Lima